E por falar em cidadania...
E a educação como vai? Aos trancos e barrancos sofrendo com os buracos e solavancos dessa estrada esfarrapada e desassistida por qualquer governo. Eis, de maneira não poética, um retrato insensato da educação brasileira. Tornou-se um lamaçal tão característico dos caminhos esquecidos de nossos rincões que vez pó outra vemos nos noticiários. A nossa educação está como aqueles caminhões carregados e atolados: o produto final já chega apodrecido. Quando chega. Não é um bom início constatar essa triste realidade, mas o fato é que algo de errado está há muito tempo solapando o desenvolvimento desse país tropical bonito por natureza. E que beleza, se em fevereiro temos carnaval, porque isso distancia um pouco nossa atenção. Contudo, essa crítica se tornou só mais um lugar-comum, pois as mentes abertas hoje falam em educação como redentora da cidadania. E como falam em cidadania? Carteira assinada! Infelizmente é isso: não formamos mais cidadãos conscientes de sua ocupação moral e ética na sociedade. Aquela qualidade política que Pedro Demo ressalta em seu livro “Um Brasil mal-educado” (Champagnat, 1996), capaz de realmente intervir nessa realidade caótica brasileira. Formamos um exercito de consumidores para usufruir da “liberdade de consumo”, “a única que deu certo até hoje”, segundo uma personagem do filme “Cronicamente inviável” (Sérgio Bianchi, 2000). Ser cidadão hoje significa consumir. Para consumir é preciso trabalhar para poder comprar. E para trabalhar é preciso que o “colaborador” saiba mais que apenas apertar botões.
Nossa educação vai mal e isso não é de hoje. Esse ataque neoliberal às políticas educacionais só revela o quão vulneráveis estamos a essa ótica perdulária de nosso possível potencial criador. Se, ideologicamente as vítimas do processo educacional não conseguem intervir em sua própria realidade, como poderão criar uma consciência política de embate? Não podemos simplesmente aceitar a desculpa fajuta de que “a culpa é do neoliberalismo” é uma suposta invenção dos intelectuais de esquerda. A crise está posta e não é por causa das pobres almas carentes ou dos que os representam (e quem não os representa, não é?). A superação dessa disputa ideológica também é fundamental para sustentar uma verdadeira revolução na educação. Não podemos aceitar que a educação seja tratada como mero recurso à produtividade. Há ainda que se tratar de um ponto aqui: a ideologia da competição e volumoso louvor à meritocracia. Como entender um curso técnico chamado “Gestão de recursos humanos”? São seres humanos realmente ou apenas recursos? Recursos naturais? Ou essa bela tentativa de chamar os trabalhadores de ‘colaboradores’? Colaboram com quem, com o lucro do patrão? Ou só colaboram para que o sistema continue sugando a tudo e todos? E os best-sellers caminham também nessa direção, com títulos e conteúdos exclusivamente voltados para aqueles que querem vencer, competir, se dar bem nesse nicho mercadológico do lucro incessante! Tudo voltado para uma lógica excludente. A competitividade exacerbada toma seu lugar da educação. Enquanto ter for mais importante... Isso já estamos cansados de ouvir. Porque, então, continuamos esquecendo do ser? Porque TER é ainda o mais importante. Se você não tem, está fora do sistema. Ou façamos a educação mudar esse mundo, ou a educação vai continuar sendo apenas o que é: um excelente aparato ideológico a serviço do Estado, como diria Althusser. E o Estado existe por diversas funções, mas podemos observar facilmente que uma delas não é oferecer igualdade social e econômica. Uma pena.
Prof. Wagner Fonseca, 20 de julho de 2010











